

Notas do trabalho de campo em Angola
Paulo Matos (PhD candidate, CATTLEFRONTIERS Project)
Em março e abril de 2026, eu viajei para Angola para realizar pesquisa em arquivos e trabalho de campo. Aqui ficam algumas impressões da minha estadia no país.

Esta fotografia foi tirada durante a entrevista que realizei na localidade de Tchipeio, município da Humpata, província da Huila, no dia 16 de março. Trata-se de um grupo de 7 camponeses que possuem gado para utilização na agricultura (para puxar o arado e utilizar o estrume na fertilização da terra). São membros da associação de camponeses Tunga Hokule e todos pertencem à população Nyaneka-Nkumbi, uma das mais afetadas pela demarcação de terras feita a favor dos europeus no final do período colonial. Até hoje, vivem com as limitações resultantes da perda de terras, das infraestruturas precárias e dos efeitos das alterações climáticas. O roubo e o furto de gado são um grande problema nesta região.

Estas fotografias foram tiradas no dia 13 de março, durante uma visita que eu fiz ao curral de um pastor Ngambwe, no município de Chiange/Gambos, província da Huíla. Trata-se de um pastor de 66 anos, chamado António Manuel Kaita, que é o presidente da associação de pastores de Ovatumby. A visita foi importante para conhecer o funcionamento da associação e também para constatar algumas evoluções na pastorícia no sudoeste de Angola, desde a independência. Uma mudança significativa é o início do cruzamento do gado local Ngambwe com raças exóticas (a que chamam «gado da Namíbia» ou «gado da África do Sul», não tendo a certeza do nome oficial da raça). Os resultados do cruzamento parecem ser bons, uma vez que o gado resultante é visivelmente maior e com mais carne.

2 de abril: Trabalho de campo na localidade de Chiulo, município de Humbe, província de Cunene. Uma boa amostra do que encontrei em alguns locais em Humbe, Humpata e Gambos.

Esta foi uma entrevista que realizei na localidade de Okambada, município de Ondjiva, província do Cunene, no dia 23 de março. A entrevista decorreu na casa (que denominam «quimbo») de Inácio Félix Hidinwa, um pastor e griot Mukwanyama que me contou histórias sobre a ascensão do povo Ovakwanyama, mas também algumas histórias muito interessantes sobre a era colonial. Ele é descendente da linhagem do mais poderoso rei Kwanyama, Mandume, deposto pelos portugueses em 1915. Os Ovakwanyama são conhecidos como um dos povos pastores de gado mais fortes e habilidosos de Angola, sendo o gado uma parte central da sua vida económica, social, cultural e religiosa.
Durante meu trabalho de campo em Angola, eu visitei várias comunidades pastoris e agropastoris em regiões como a Humpata (onde vive o povo Nyaneka-Nkumbi), os Gambos (onde vive o povo Ngambwe), o Humbe (onde vive o povo Nkumbi), Namacunde e Ondjiva (onde vive o povo Kwanyama) e Moçâmedes (ambiente do povo Kuvale). Essa amostra variada de sociedades permitiu-me compreender a diversidade do pastoralismo na zona pastoril de Angola (a parte sudoeste do país). Enquanto as pessoas que vivem nos arredores de Humpata e do Lubango utilizam o gado para auxiliar a agricultura, posicionando-se como agropastores, aquelas que vivem no sul, mais próximas da região do Namibe e do Deserto do Kalahari, especializam-se mais na pastorícia, dedicando mais tempo e trabalho à criação de gado. Essa especialização é resultado das condições ambientais enfrentadas pelas comunidades e da adequação da terra para a agricultura, e também das práticas socioculturais desenvolvidas por essas sociedades ao longo de séculos.


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